garrafas da vida, aroma das palavras, verdades inventadas…

Trans-pirando

Dez razões para evitar o banho imediato após a prática de exercícios físicos:

1.   Reduz a ansiedade: para que tanta pressa em tomar banho?

2.   Hidratação natural da pele. Não é mais necessário usar máscaras e cremes para cútis, o próprio sebo faz o trabalho.

3.   Aceitar o próprio cheiro nos torna mais confiantes. Elimina a vergonha de ter um desodorante vencido.

4.   O cabelo seboso é mais obediente: possui gel próprio. Basta fazer o penteado e libertar o pensamento.

5.   Assegura a intimidade: Só vai te abraçar, quem tem laços afetuosos com você.

6.   Meias encharcadas pelo suor criam intimidade com seu cachorro. Aumenta a aproximação e garante massagens nos pés.

7.   Humaniza: você fica em contato com seu lado mais humano já que não existe ninguém que não transpire.

8.   Garantia de prazer: o suor escorrendo pela pele, descendo entre os pêlos é capaz de causar arrepios inimagináveis.

9.   Relaxar o corpo embargado no próprio suor possibilita maior relaxamento que um banho quente. Mais autoconhecimento do que análise.

10.  Ouvir o zumbido das moscas ao redor pode ser um movimento ultra-budista. O zunido das moscas voando a sua volta o livrará dos pensamentos egoístas. Eis aí uma nova prática rumo ao altruísmo.

Balanço 2011

Foto de Alan Troccoli

Dois mil e onze foi, definitivamente, um ano ímpar, aonde as lições vieram aos pares.

Percebi que a vida é difícil pra todo mundo, e precisamos aprender a ser feliz – uma tarefa desafiadora. Continuarei insistindo.

Buzina não para carro. O medo paralisa as pessoas. As palavras, quando bem utilizadas são armas fatais.

Gentileza vem sendo confundida com submissão. Se você não ocupa seu espaço, alguém irá ocupá-lo. Então, tornei-me mais dura, madura e feliz.

Este ano, entendi que as pessoas não são números, mas podem somar muito com meu crescimento e com a realização de meus sonhos. E algumas farão muita falta…

… Mas despedidas são apenas rituais e nunca são definitivas, mesmo quando seus melhores amigos vão morar na China, Paraíba ou ainda, quando saem de seu convívio. O amor verdadeiro carregamos conosco.

A música salva. O toque acende a vida.

Aprendi que podemos tudo. Mas é necessário escolher, pois somos pouco. Algo sempre será sacrificado. Como diz minha antiga orientadora: “Será impossível provar todos os vinhos que queremos, fazer sexo com todos que nos atraem e ler todos os livros que nos interessam”.

Para encontrar a felicidade precisei re-escolher. E arcar com as conseqüências de um prazo apertado.

No mestrado, aprendi que são nos limites que descobrimos o que não somos, e encontramos quem somos. Que a generosidade do ensinar está também na gentileza, na solidariedade.

Entendi que é impossível transmitir uma notícia triste sem ficar triste. Brincadeira tem hora – bom humor não.

A persistência nos leva ao êxito. Às vezes, quando você acha que está perdendo, está ganhando.

Em 2011 descobri que não guardo raiva. Entretanto, tudo pode ser explicado, mas nem sempre justificado – e sim, minha memória é prodigiosa.

Minhas amizades foram um apoio. Às vezes, um empurrão. Ensinaram-me a usar sombras, esmaltes, cremes… Fazer baliza, intuir, persistir, experimentar, estudar, reclamar, brigar, rir de si mesma. Encontrar a alegria no descuido. Viver e não ter a vergonha de ser feliz; ou infeliz.

O mar me ensina muito. A maresia relaxa. As delicadezas, o bom humor, a inocência, as gentilezas, a voz, os fios brancos – encantamento puro.

Na distância, as palavras me abraçaram. Passei a comprar o xampu dele, pra sentir sua presença em cada brisa que passa por mim.

Aprendi que uma Heineken gelada resolve muita coisa. E “cria” barriga. Entre a perfeição e o bom humor, eu fico com o bom humor.

Papo de padaria é sempre revelador. A falta gera dor.

Vi que as crianças crescem muito rápido. Outras crianças chegam. E os pais carregam o mesmo brilho da infância… O andar desengonçado, as fantasias, a energia.

Tornei-me dependente de GPS – é sempre bom ter alguém com quem discutir no trânsito… Mas, continuo gostando de me perder. É sempre mais difícil sair do bairro do que chegar ao destino.

Notei que desviar é se proteger com um escudo vulnerável. Esclarecer é se importar. Não se afastar é desejar. E que, às vezes, o amor é um girassol no saguão do aeroporto.

Compreendi que quando as pessoas se calam, minha imaginação grita… E só a literatura pode me salvar.

Neste ano, a saudade estalava na língua. Mas os encontros fizeram brindar os olhos.

Enquanto o outro me esperava, aprendi a ter paciência.

Compreendi o dia-a-dia da minha cachorrinha, através de sua respiração. O fôlego é o impulso. Os acentos revelam a idade.

Entendi que meu olhar é uma denúncia e minha intuição é certeira – se ela erra, minha persistência faz com que ela acerte.

Tatuei os encontros que tive comigo mesma. A memória falha, mas o corpo lembra tudo.

Acreditei que o mau do século é a anemia emocional. Encontrar significado é dedicar-se. É preciso cuidar dos sentidos.

Aprendi que o movimento é feito de atritos e as farpas levam ao toque.

Rio, Pernambuco, Alagoas, Argentina – Viajar expande a alma. O sotaque do gaúcho impregna. A poesia também.

Entendi que as histórias são eternas, alguns amores são para sempre. Mas é possível amar outro de novo. E é delicioso escolher amar.

Palavras do ano: afeto, frio na barriga, confissão, bom humor, pele, gentileza, inocência, paixão, dor, assustador, desafio, amizade e encantamento.

Obrigada a todos que fizeram parte deste meu ano, e contribuiram com meu crescimento.

Para dois mil e doze fica o desejo de manter os amores, aumentar as alegrias e aprender a ser feliz.

Como dizia Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

Que tenhamos coragem!

Boas festas!

Beijo grande,

Pricila Gunutzmann

Pri, Prizinha, Profe, Pritty, Pripri, Prizoca, Princila, Chefa, Gunutzmann, @PriGnn, amiga, prima, sobrinha, irmã, neta – em constante construção.

*A parte côncava em cima da boca se chama arco do cupido

Sempre fui muito segura. Mesmo quando insegura.

A vida imperfeita que levo, abarrotada de planos falidos e sonhos demolidos é perfeita. Sempre articulo, planejo e ambiciono, mas a verdade é que venero os imprevistos, as emoções.

E nos romances, as pétalas de desordem perfumam cada história.

Detecto pontualmente as paqueras. E me enamoro de cada momento desta arte: O olhar encoberto, o esbarrar dos pés, o abraço de mãos ousadas, os sutis apelidos.

As sutilezas são retratos do afeto arquitetado.

Minhas novelas são avessas. Minha intuição certeira. E nesta história, o arco do cupido me flechou para sempre.

Logo que o vi, sabia que iria namorá-lo. Ou até mesmo me casar com ele, embora nunca houvesse desejado tal cerimônia.

Depois de quase um ano foi que ele me percebeu. Conversou comigo. Interessou-se.

Éramos modernos, filosóficos, amantes da liberdade. E estas características eram apagadas pela borracha do romance. Novas alegorias eram ilustradas.

Ele sempre foi o grande amor da minha vida, mesmo antes de nos falarmos. Antes de nos apresentarem, de nos conhecermos. Seus quase dois metros, seu sorriso tímido, suas roupas, seu bairro, seu nome, tudo nele sou eu mesma.

A cada minuto que passávamos juntos eu podia observar mais características e defeitos deliciosos.

Curtimos cada passo do romance. Apaixonados pelo flerte andávamos a cada dia pelos caminhos do desejo, sem pegar nenhum atalho, sem, pressa.

Para ele, eu era a princesinha do escritório. Nomeada, coroada e assim cortejada.

Passamos a ir embora juntos – criamos uma rotina de afetos. As linhas do metrô que ligam a Avenida Paulista ao bairro da Vila Mariana eram repletas de montanhas – cordilheiras de ternura. A cada dia, um novo olhar, uma frase composta de doces tolices, um toque provocador, um abraço de intenções apetitosas.

Não contávamos os dias. O tempo era singular. Naquela época eu não conhecia a pressa em ter – o amor declarava que teríamos toda a eternidade.

Meu passatempo era imaginar a cena do beijo.

O beijo que desperta as princesas. Que as retira do mundo solitário dos sonhos e as insere na realidade das alegrias e paixões.

Na plataforma da estação ele se aproximou. Eu sabia que era a hora.

Seus joelhos tocaram os meus. Não me movi. Esperei. A dança do afeto se iniciou. Seu toque afeiçoou meus anseios, suas mãos desenharam meu rosto e seus olhos estavam tão iluminados que fechei os meus. Nossos narizes encostados me embaralharam em uma ventania de prazer. Os lábios dele, com o arco do cupido em formato de coração, se encostaram aos meus… Uma alegria incontrolável tomou conta do meu ser.

Mas não enrubesci. Não correspondi. Desmaiei.

O beijo me fez adormecer, perder os sentidos. Diferentemente das princesas fiquei encantada no devaneio do verdadeiro amor.

Perdi o toque, encontrei o chão. Eu, sempre tão preparada, simplesmente desmaiei. Sem nenhum controle sobre meu próprio corpo, minha máscara sucumbiu. Minha ingenuidade eclodiu. Tropecei, esmoreci, caí. Ao invés de manter a pose, mostrei minha alma em um segundo. E todos os contornos e defeitos precisamente humanos que possuo foram revelados pela minha paixão.

Esconder as vulnerabilidades nos reveste de avesso.

Mostrei meus defeitos, e ele se apaixonou pela fragrância de sinceridade que meu corpo exalava. E eu me apaixonei pelo seu corpo. Seu gosto. Sua boca de coração.

Era ele, singularmente, o homem da minha vida. Impossível entender – o saber está no sentir.

Nosso romance foi sempre rodeado de saúde afetiva: Liberdade, confiança e companheirismo. Entretanto, enlaces saudáveis não são possíveis. Nossas escolhas benéficas anularam a ligação afetiva.

Ele viajou para fora do país, para aprimoramento do língua inglesa. Um curso de seis meses, que durou dois anos.

Depois de já percorrido dois anos ininterruptos, nos distanciamos, devagar. A rotina se tornou mais freqüente que nossa vida amorosa. E eu nunca entendi porque tudo acabou tão em paz, que parecia nunca ter terminado, mesmo já sabendo que ele havia se casado.

“Seu olhar, seu andar, sua lentidão e sua boca de coração serão para sempre meus”, foi exatamente isso que disse a ele quando andávamos de mãos dadas em uma das ruas do bairro da Vila Mariana.

Tudo o que dizemos a uma pessoa ecoa para sempre nas ladeiras de afeto de sua memória.

Onze anos se passaram, até que meu telefone tocasse. Do outro lado da linha, ele. Não me surpreendi. As raras vezes que ele me telefonou, parecia que faziam apenas cinco minutos, e não anos, que havíamos nos distanciado.

O amor tem um tempo próprio, marcado pelo quanto seus olhos se fecharam e quanto seus lábios se tocaram. Não há segundo, não há minuto. Apenas a eternidade.

Contou-me que se casou – embora sempre jurasse que jamais se casaria. E que agora, estava à espera do primeiro herdeiro.

Esclarecer é se importar.

Sorri ao telefone. O amor eterno é tão arrebatador que não deixa espaço para inveja diante da felicidade do amado.

Embarcamos em duas horas e meia de conversa. Entre os acontecimentos históricos, as vidas que haviam seguido, os desejos de uma época, filosofias, medos, anseios e até sobre a televisão. Lembrei-me da última vez que havia ido a casa dele. Recomendei um livro, discuti um filme, brinquei com ele sobre o nome de seus cachorros.

E, no meio daquele entrelaçado de palavras, memórias e ingênuas filosofias ele sussurrou: “Esses dias, minha esposa falou que torce para que nosso filho tenha a boca de coração como a minha… lembrei-me de você, lembra?” E emendou a conversa sobre o quão pesado é o trabalho, a vida, a rotina.

Desligamos o telefone. Mantemos a ligação.

O tempo cronológico é uma invenção que busca nos limitar com paredes de memórias imaginadas. Quer que acreditemos que seus milésimos de segundos, resolveram nossos sentimentos. Mas o cantarolar do amor ecoa para além dos ponteiros.

Diferentemente dos príncipes e princesas, não vivemos juntos para sempre. Mas o arco do cupido, marcado no seu lábio superior, me flechou para sempre. E seu beijo, de encantamento entorpecente, me tomou de amor.

O relacionamento acabou. O amor nunca.

Conchas do Mar

Para romântica Ligia Pacheco Gunutzmann

Foto de Ligia Pacheco Gunutzmann

Aos trinta anos e alguns romances depois é difícil não estar ferida o suficiente para desacreditar do amor e julgar inútil a paciência para decifrar os códigos e jogos românticos. Além da plena convicção de que você nunca mais cairá na ilusão de romances e contos de fadas.

Até que surge, inesperadamente, alguém que remexe seu estômago com tanta tranqüilidade que lhe traz coragem para reabrir a própria rotina e encontrar seu lado mais vulnerável, insensato e feliz.

Foi assim que iniciei um romance com um colega de trabalho.

Em um happy hour, seu braço encostado ao meu numa fingida distração, um gole em seu whisky, simpatia, olhar direto e sorriso mistério. Lá estava eu lançada, mais uma vez, ao mar de coragens e breguices que inundam meu ser quando me apaixono.

É incrível, em mim, a paixão passa pelo dedão do pé e chega ao coração, sem, é claro, passar pelo crivo da minha inteligência. Mesmo quando se inicia com um toque no meu cabelo ou na minha face, nunca sobe à minha cabeça o suficiente para acender a luz da minha razão.

Rapaz difícil. Interessado. Mas impossível. Ou melhor, possível demais. Livre, amável, gentil, correspondendo as minhas diretas.

Parecia que desta vez havia mudado meu padrão de escolhas amorosas e, em cinco minutos, conheci meu próximo “amor-eterno-enquanto-dure”, que agora, seria possível para sempre… Pena que o “eterno-quanto-dure” é sempre mais longo que a realidade, e desapego é complicado quando a razão está fora da paisagem.

Ele sempre respondeu as minhas mensagens. Mas nunca topava sair comigo. Quando o carnaval chegou, eu só pensava em ir viajar para, em frente ao mar, esquecê-lo. Afogar esta nova fantasia.

Voltei de viagem com novas invenções. E ele ressurgiu com uma gentileza no trabalho. Uma gentileza que lhe deu trabalho, exigiu interesse e até mudança de chefia.

Conversávamos frente a frente mais uma vez e ríamos descontraídos. Eu cobria os lábios com um livro. Fitava-o, desejava-o e segurava os beijos com o livro.

Em nosso segundo encontro, se é que mais uma necessidade de trabalho pode ser chamada de encontro, conversávamos lado a lado, em uma ladeira de movimentos apressados, muito próximos. Gostava do jeito que ele caminhava ao meu lado: nossos passos se trançando durante o caminho, as pernas se esbarrando, os quadris se esfregando e os braços se encontrando – gosto de caminhar com alguém que possui o mesmo passo que eu, mas com outra temperatura.

Caminhava, conversava e sorria. Como num álbum, ele fazia poses e se mostrava. Mas, mais que as melhores poses, eu podia ver toda combinação de defeitos e alegrias irresistíveis com o bater fotográfico do meu coração.

E então, não resisti, pedi. Eu que sempre acreditei que algumas coisas não se pedem, acabei pedindo. Um beijo. Um “beijo impedível”, pelo ato, pelo fato, pelo vento.

Ele suspirou. O beijo era impossível. Mas, me deu um selo. E depois outro. E logo eu estava impregnada de lábios e cheiros do mar. Selos que dispersaram o tempo, enganaram os relógios e duram minha vida inteira.

Já o tivera atrás dos meus joelhos, aquecendo meu pescoço e desenhando minhas convinhas com o escorregar de seus lábios, em nossas mensagens, mas, receber selos com cheiro de mar foi paralisador – paralisou a dor da ansiedade, do medo, do segredo.

A noite foi repleta de estrelas do mar.

Ele se despedia com uma rede de palavras emaranhadas e inaudíveis que teceram seu desejo, seu estar, seu ficar.

Depois deste encontro, nunca mais. “Nunca mais”, eu repetia. Afinal de contas eu pedi a ele o beijo. Jogada em um abismo de vontades expus meus segredos.

Racionalizei que seria uma boa forma de terminar o romance – selos apaziguadores, profundas marcas do mar.

Depois de dois dias uma nova mensagem fazia meu celular vibrar. E meus olhos também. Nela, ele perguntava como eu estava. Minha respiração, ansiosa e confusa, declarava: Resistir ou desistir? Desisti de resistir. Respondi. Ele ligou.

Sempre o trabalho. Vivíamos cheios de desculpas de trabalho. Nunca fomos tão pró-ativos. Mas os encontros reais, de pele e osso, de cheiro e selos, não aconteciam.

Incompreensível.

A saudade da maré me fazia acreditar que os sons misteriosos que ele silenciava, eram como conchas que precisamos ouvir com o olfato, o tato e o paladar. Eu que não conseguia escutá-lo.

Mudei de mundo. Vivi submersa nas profundezas. Às vezes enterrada pela areia, às vezes mexida pelas ondas. Persisti.

Eu sempre atendia e respondia as mensagens dele, pois estava lidando com o misterioso som guardado nas conchas do mar. Era necessário aprender a decifrar cada toque, cada indireta, cada promessa.

Ele já estava se tornando inaudível. Mas eu preferia a rejeição à ausência.

O romance evoluiu exatamente quando o abandonei. Sem tática, sem jogo. Com dor.

A distância me tornou mais forte. O sal da saudade marcou sua pele, o interpelou, o desejo surgiu arrebatador e o sol o queimou.

Suavidade, persistência, ondas de afeto. Sentia-me em casa frente ao mar de todas as vontades que vinham desde minha infância até a vida adulta. Mas resistia. Afinal, já conhecia os maremotos.

Passado alguns meses, em um almoço a trabalho, em frente ao mar, ele me fisgou. Imediato, inspirador e indireto. Conquistamos oceanos de emoções. Saliva, rubores e olhares. Entregues aquele mistério, reiniciamos nossa história. Ou a realizamos.

Hoje continuo lidando com as conchas do mar. Meu maior anseio é ouvir dele palavras que explicitem seus verdadeiros desejos. Mensagens, versos ou simples letras que me acalmem e mostrem que estou no caminho certo. Mas isso não acontece.

Compreender alguém é tão complexo quanto entender os desafios existentes no mar de sangue, pele e água que o formam.

Preciso me acostumar com sua melodia muda de palavras falsas.

O amor está onde se espera. E onde não se ouve. Viver o amor depende do esforço e da coragem de fantasiar, escolher. E arriscar.

 

Foto de Jivago Sales

 

Desde pequena, alimentava uma paixão platônica por meu vizinho. Cabelos pretos, ar sempre sério, sorriso de dentes separados. Ah, como eu gostava do Fabrício!

Aprontávamos nos bailinhos dos irmãos mais velhos. Dançávamos. Abastecíamos de ciúmes o olhar do meu irmão do meio. Ríamos da incompreensão dos adultos. Colecionávamos cumplicidades.

Dividíamos nossas tardes brincando com o planejamento de nossas vidas em dados de plásticos.  Perdia-me naquele olhar brilhante, fixo nas casas e hotéis do Banco Imobiliário.

O tempo passou. Crescemos. As penugens juvenis viraram asas. E nem um beijo foi trocado.

Nossa família sempre torceu por nós. Diziam: “Fazem um lindo par.” “Coisa de destino, ela nasceu exatos três dias depois dele…”

E quanto mais eles torciam, mais nos contorcíamos. Disfarçamos tanto que não vivemos.

Convicta de que precisávamos residir em cada dobra desta estória, aos vinte e cinco anos de idade, resolvi conversar com ele. Ele confessou que pensava como eu. Não tivemos dúvidas: marcamos um encontro, na véspera do ano novo, já que ambos, guiados pelo destino, passariam a virada na mesma praia.

Por volta das seis horas da tarde com o sol ainda no céu, dourando o mar e nossos cabelos, ele passou na casa onde eu estava. Íamos beber água de coco.

Era a perfeição suprema. Iniciaríamos o ano abraçados a uma nova vida. A realização da história já prevista em qualquer estrela, em todas as cartas de tarô, em nossas próprias mãos.

E foi então que se iniciou minha crônica vida de fadas: um misto afetivo, uma crônica que insisto inutilmente tentar transformar em conto, ainda que um conto crônica, sarcástico, irônico. 

Cresci acreditando que o acordado não sai caro. E tudo já estava acordado. Mas, encontrar minha paixão de infância padeceu de inflação e os valores geravam complexa inadimplência.

Já no carro, percebi um movimento estranho. Uma ansiedade sem igual visitava minhas mãos, meu estômago e minha boca. Não falava coisa com coisa. Não conseguia pensar e nem mesmo articular as palavras. Ele estava calado.

Chegando à praia paramos em um quiosque e pedimos a água de coco. Perfeito! Molharia minha boca e meus pensamentos iriam florir com a simplicidade e perfeição que só a água do fruto do coqueiro possui. A água mais romântica da praia! Límpida, doce, na medida certa. Gelada traz o melhor dos mundos para qualquer amante do mar. No caso, nós dois, futuros amantes.

Mas, a resposta veio como um balde de água fria: “Senhor, não temos água de coco. Apenas a já engarrafada”.

Minha fala se indignou e travou. Meus pensamentos reivindicaram em passeata: Falta de água de coco na praia? Para onde foi à poesia do universo? Envasar em garrafas plásticas água de coco já me parece um verdadeiro absurdo, mas revende-las na praia? Envasilhar é padronizar as sensações e sorrisos da paisagem.

A falta daquele fruto não era um bom sinal. Pressenti que todo o encontro estava fadado a ser enterrado nas memórias das idealizações familiares ascendentes.

Sentamos em uma das mesas, acompanhados pelas garrafas. Perdemos a romântica vista. Perdemo-nos de vista.

Na tentativa de encontrar assunto com aquele homem, iniciei a conversa sobre as comuns e comentadas listas de final de ano.

E então, tudo foi rabiscado.

Na lista de metas do Fabrício, estava o objetivo de se casar em dois anos. Frase que ele lançou convictamente, sem romantismo, sem rodeios.

Meu cabelo se armava. Como eu.

Estremeci. O tempo fechou. Desencontramo-nos. Não ouvia nenhuma das palavras que ele pronunciava.

Quanto mais tentávamos descontrair a conversa, mais aprisionados ficávamos. Arrisquei em me aproximar e acabei por derrubar a garrafa de água no colo dele.

Tentamos criar clima. Fazer caras e bocas. Mas as caras eram assustadas. Estávamos com os rostos estendidos no varal. Trepidantes.

Seguimos adiante. Mudamos o assunto. Meus pensamentos se embaraçavam. Não encontrava mais a suavidade da infância, o amor verdadeiro na brincadeira.

O amor parecia apenas um alvo dentro de uma lista que buscava desempenhos.

Minha alma havia escorregado pra debaixo da mesa. Retorci. Encolhi. Num nó sem nós. Desalinhada. Com os batimentos confusos. Sem completude. Sem final feliz. Desejei muito a frase que veio em exatos quinze minutos: “Pri, vamos embora?”

Sem conseguir pagar as contas dos desejos infantis, sem desculpas para nossos inconscientes salvarem o encontro, partimos, aliviados. O encontro dos dois adultos sufocou a alegria infantil com tantas metas vitaminadas.

Fiquei meses sem conseguir dormir, tentando reembarcar naquele sonho. Perder uma ilusão dói mais do que perder uma realidade.

O tempo passou, a rotina abraçou seus trilhos e o romance nunca mais foi narrado.

Hoje, dois anos após o ocorrido, relembro a cena durante a cerimônia de casamento do Fabrício. Padre, noivinhos, padrinhos, familiares, amigos. O ritual foi consagrado.

O arroz atirado no casal cutuca minha memória sobre o conto de fadas da minha vida. A fartura romântica bloqueou a felicidade real.

Definitivamente o amor está no final da minha lista. Ou fora dela.

Na vida adulta não há contos de fadas se você for dona de crônicas fantasias.

Balanço 2010

 

Dois mil e dez foi um ano desafiador.

Mais complicado do que os desafios do caminho são os desafios que fazemos a nós mesmos. E este ano inteiro me desafiei.

Fui mais crítica comigo, mas, o mais difícil foi me perdoar. Encontrei diversão e poesia nos cantos da minha vida – sem magia, com suor.

Cheguei ao meu limite. Foi necessário fôlego extra. E aprender a respirar.

Lidei com meus erros, minhas dificuldades, minhas incompetências. Não fiz muito do planejado, do anotado na minha lista de ano novo. Mas concretizei sonhos que me eram desconhecidos.

Ouvi minha intuição. Passei a fazer pra acontecer. Entendi que muito do que amo fazer depende de prática. Tingi o cabelo, colecionei garrafas, ajudei os que pude e precisavam. Vi uma turma se formando.

Conheci muita “gente grande”, competente, inspirada.

Mestrado, crônicas, afastamentos, encontros e reencontros.

Novos amigos. Grandes amigos. Alguns vieram de longe, com diferentes valores, roupas, sotaques. Outros estavam tão perto. Gente que levará para sempre muitos de meus momentos. E meu amor.

Amigos de perto, amigos de sempre. Aqueles aos quais confesso minha vida em um único abraço.

Afeto de tantos! Em palavras, fotos, confissões e sorrisos. Minha memória fotografou tantas cores, tantas poses, tantas paisagens.

Algumas pessoas serão pra sempre. Nem sempre somos aquilo que o outro precisa. Estas foram lições de 2009 que ficaram ainda mais fortes em 2010.

Ano de solidão. De misturar fantasia e realidade. Ah, como eu amo fazer isso. Redesenhar, encontrar, manusear a si mesmo.

Muitas perguntas. Muitos caminhos. Poucos abraços, mas muitos sorrisos.

Troca da TV pela ducha, do secador pelo vento. Menos lentes, mais óculos. Mais psicanálise, menos chocolate. Mais música, menos batom. Muita emoção. Menos preconceito, mais amizade. Cores, esmaltes, flores. Reencontro comigo mesma. A volta da sombrancelha que se ergue. Pintar os olhos. Delinear a vida.

Alegrias, muitas alegrias! Este ano gente muito querida cuidou da própria vida, realizou sonhos e mudou de projetos.

Olhei por outro lado. Vi um mundo de possibilidades. Entendi que é necessário coragem, preparação e inspiração para andar neste novo mundo.

Passei a arriscar pra ter. Confiar. Vencer meus medos. Simplesmente começar. Fazer. Inventar. Dormir pouco. Entendi que pessoas bacanas não necessariamente geram histórias felizes.

É preciso saber esperar. Ou saber partir. Construir. Escolher.

Última lição do ano: As paixões me dão coragem. Logo eu, que, apesar de extrovertida, sou tímida para as questões afetivas. Haja chá de razão pra acalmar meu coração, impedir a breguice, segurar as declarações.

Palavras do ano: desejo, mau-humor, dedicação, ternura, coragem, dor, confissão, palavra, ironia e engajamento.

Meu próximo ano iniciará sem lista. Sem programação, sem caixas. Com mais da vida. Abarrotado de dedicação para encontrar a realização dos sonhos.

A você que fez parte deste meu ano, obrigada por tudo! Um 2011 de coragem e poesia.

Beijo grande.
Pricila

Sofia - minha sobrinha que completa hoje, 5 anos

Na foto, Sofia, minha sobrinha que completa 5 anos hoje.

Desde pequena, toda vez que ia à casa da minha tia, era a mesma estória: “Pri, você tem que comer jiló, arroz integral, espinafre. Você já experimentou? Coma!”

Mesmo com a casa cheia de primos e primas, correndo para todos os lados, lá tudo tinha a hora certa: hora de comer, hora de brincar, hora de dormir.

Sempre foi chata.

Não me deixava fazer nada do que eu queria.

Se a chamava pra brincar de pega-pega, roda, cobra-cega, amarelinha ou de bater as mãos cantarolando “atirei o pau no gato” ela sempre dizia que não podia, que as pernas doíam e que não sabia.

E sempre, sempre me dava cortes de tecido de presente.

O que uma criança faz quando ganha panos de presente? Declaradamente a decepção tomava conta da minha face.

Todo aniversário, Natal e Dia das crianças eu já sabia: sedas, algodões, cetins, veludos e linhos. Lisos, floridos, brilhantes, estampados.

Minha mãe insistia: “Filha, vamos à costureira! Você poderá fazer um lindo vestido”. Mas, levar até a costureira, tirar medidas, esperar dias até que ficasse pronto… Não tinha paciência. Nem interesse.

Então, fui empilhando, ritualisticamente, os presentes. Por ano. Por cor. Por tipo.

O monte crescia no fundo do guarda-roupa. O tempo passava. Erguia-se um castelo de linhas abandonadas.

Em minha infância, sempre que havia chuva de constâncias em meu dia, eu entrava no armário e fechava a porta. Lá fazia amizade com os bichos-da-seda, cochichava com as traças, brincava com a luz que entrava pelas laterais das portas. Amarrotava meus pensamentos e soltava minha imaginação. Segredos são desvendados na mesmice. A monotonia é atarefada por encantos.

Numa das minhas visitas ao guarda-roupa, avistei a morada dos presentes abandonados. Viajei até ao quarto de bagunças da minha mãe, e voltei equipada de possibilidades: tesouras, colas e botões.

Abracei um veludo vermelho retirando-o da base da pilha. Cortei, preguei lantejoulas. Respirei fundo e vesti. O espelho consentiu: Eu era uma princesa.

Em seguida, apanhei uma seda florida, emendei com um cetim verde brilhante, colei fitas coloridas. Vesti. Minha mãe reconheceu: Agora eu era uma fada. Depois fui sereia. E bruxa. E tantas outras criaturas…

Minha tia era a única que me deixava ser o que eu quisesse.

Abraço mágico


Toda quinta-feira meu namorado me buscava no metrô.

Sempre no mesmo horário, várias outras pessoas estão à espera de suas caronas naquele mesmo local, próximo a estação.

Entre um carro e outro, encontros e despedidas. E muita gente na frente, atrapalhando a visão. Principalmente em dias de chuva, onde vários guarda-chuvas estão abertos.

Avistei-o de longe. Lá estava seu carro, parado, inconfundível por ter um amassado na traseira de uma leve batida que ele deu, ao estacionar.

Corri para entrar logo no carro, no intuito de me livrar da chuva que caia, e me molhar o menos possível. Entrei rapidamente no carro e lhe dei um forte abraço.

Este foi o nosso abraço mais íntimo. Fortemente correspondido. Firme. Seguro. Me fez esquecer todo o estresse do dia, o cansaço, a briga com o chefe, os planos frustrados. Um abraço mágico, daqueles que basta fechar os olhos para revivê-lo por toda a vida.

Infelizmente, o abraço foi interrompido por uma buzina insistente e estridente, de um carro que estava logo atrás do nosso.

Então, ao abrir os olhos, a realidade: não era o meu namorado. Gelei.

Queria sair do carro voando, mas a porta já travada me impedia. O rapaz, também atordoado, disse, quase sem voz, um tímido “oi”. Eu, atrapalhada pelo desespero em sair do carro, derrubei minha bolsa, meus livros, mas consegui juntar tudo, abrir a porta e sair.

O carro do meu namorado era exatamente o que estava atrás. Aquele que havia buzinado insistentemente.

Entrei no carro e a briga começou. Ele, que havia visto tudo de “camarote” não compreendia como eu podia ter dado aquele longo abraço. Ele parecia saber tudo que eu havia sentido naquele momento. E esbravejava.

Depois de muita discussão, finalmente, fizemos as pazes e nos abraçamos. E então, senti um abraço distante. Percebi uma troca de marchas lenta. Não ouvia nada do que ele dizia. Não o compreendia. Eu estava, definitivamente, ao lado de um estranho.

A pergunta que eu me fazia era: Como? Como podia estar ao lado de um estranho depois de tanto que havia sido compartilhado? Tantas viagens, tantas alegrias habitada nos caminhos. Quão companheiro ele já tinha sido: ia me buscar, me levar. Em quantas festas, depois dos meus “pileques”, ele estava lá.

E então, em meio a tantos questionamentos, eu descobri: Eu não havia me enganado ao entrar no outro carro. Eu estava mesmo procurando por um chofer, não um namorado.

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