*A parte côncava em cima da boca se chama arco do cupido

Sempre fui muito segura. Mesmo quando insegura.
A vida imperfeita que levo, abarrotada de planos falidos e sonhos demolidos é perfeita. Sempre articulo, planejo e ambiciono, mas a verdade é que venero os imprevistos, as emoções.
E nos romances, as pétalas de desordem perfumam cada história.
Detecto pontualmente as paqueras. E me enamoro de cada momento desta arte: O olhar encoberto, o esbarrar dos pés, o abraço de mãos ousadas, os sutis apelidos.
As sutilezas são retratos do afeto arquitetado.
Minhas novelas são avessas. Minha intuição certeira. E nesta história, o arco do cupido me flechou para sempre.
Logo que o vi, sabia que iria namorá-lo. Ou até mesmo me casar com ele, embora nunca houvesse desejado tal cerimônia.
Depois de quase um ano foi que ele me percebeu. Conversou comigo. Interessou-se.
Éramos modernos, filosóficos, amantes da liberdade. E estas características eram apagadas pela borracha do romance. Novas alegorias eram ilustradas.
Ele sempre foi o grande amor da minha vida, mesmo antes de nos falarmos. Antes de nos apresentarem, de nos conhecermos. Seus quase dois metros, seu sorriso tímido, suas roupas, seu bairro, seu nome, tudo nele sou eu mesma.
A cada minuto que passávamos juntos eu podia observar mais características e defeitos deliciosos.
Curtimos cada passo do romance. Apaixonados pelo flerte andávamos a cada dia pelos caminhos do desejo, sem pegar nenhum atalho, sem, pressa.
Para ele, eu era a princesinha do escritório. Nomeada, coroada e assim cortejada.
Passamos a ir embora juntos – criamos uma rotina de afetos. As linhas do metrô que ligam a Avenida Paulista ao bairro da Vila Mariana eram repletas de montanhas – cordilheiras de ternura. A cada dia, um novo olhar, uma frase composta de doces tolices, um toque provocador, um abraço de intenções apetitosas.
Não contávamos os dias. O tempo era singular. Naquela época eu não conhecia a pressa em ter – o amor declarava que teríamos toda a eternidade.
Meu passatempo era imaginar a cena do beijo.
O beijo que desperta as princesas. Que as retira do mundo solitário dos sonhos e as insere na realidade das alegrias e paixões.
Na plataforma da estação ele se aproximou. Eu sabia que era a hora.
Seus joelhos tocaram os meus. Não me movi. Esperei. A dança do afeto se iniciou. Seu toque afeiçoou meus anseios, suas mãos desenharam meu rosto e seus olhos estavam tão iluminados que fechei os meus. Nossos narizes encostados me embaralharam em uma ventania de prazer. Os lábios dele, com o arco do cupido em formato de coração, se encostaram aos meus… Uma alegria incontrolável tomou conta do meu ser.
Mas não enrubesci. Não correspondi. Desmaiei.
O beijo me fez adormecer, perder os sentidos. Diferentemente das princesas fiquei encantada no devaneio do verdadeiro amor.
Perdi o toque, encontrei o chão. Eu, sempre tão preparada, simplesmente desmaiei. Sem nenhum controle sobre meu próprio corpo, minha máscara sucumbiu. Minha ingenuidade eclodiu. Tropecei, esmoreci, caí. Ao invés de manter a pose, mostrei minha alma em um segundo. E todos os contornos e defeitos precisamente humanos que possuo foram revelados pela minha paixão.
Esconder as vulnerabilidades nos reveste de avesso.
Mostrei meus defeitos, e ele se apaixonou pela fragrância de sinceridade que meu corpo exalava. E eu me apaixonei pelo seu corpo. Seu gosto. Sua boca de coração.
Era ele, singularmente, o homem da minha vida. Impossível entender – o saber está no sentir.
Nosso romance foi sempre rodeado de saúde afetiva: Liberdade, confiança e companheirismo. Entretanto, enlaces saudáveis não são possíveis. Nossas escolhas benéficas anularam a ligação afetiva.
Ele viajou para fora do país, para aprimoramento do língua inglesa. Um curso de seis meses, que durou dois anos.
Depois de já percorrido dois anos ininterruptos, nos distanciamos, devagar. A rotina se tornou mais freqüente que nossa vida amorosa. E eu nunca entendi porque tudo acabou tão em paz, que parecia nunca ter terminado, mesmo já sabendo que ele havia se casado.
“Seu olhar, seu andar, sua lentidão e sua boca de coração serão para sempre meus”, foi exatamente isso que disse a ele quando andávamos de mãos dadas em uma das ruas do bairro da Vila Mariana.
Tudo o que dizemos a uma pessoa ecoa para sempre nas ladeiras de afeto de sua memória.
Onze anos se passaram, até que meu telefone tocasse. Do outro lado da linha, ele. Não me surpreendi. As raras vezes que ele me telefonou, parecia que faziam apenas cinco minutos, e não anos, que havíamos nos distanciado.
O amor tem um tempo próprio, marcado pelo quanto seus olhos se fecharam e quanto seus lábios se tocaram. Não há segundo, não há minuto. Apenas a eternidade.
Contou-me que se casou – embora sempre jurasse que jamais se casaria. E que agora, estava à espera do primeiro herdeiro.
Esclarecer é se importar.
Sorri ao telefone. O amor eterno é tão arrebatador que não deixa espaço para inveja diante da felicidade do amado.
Embarcamos em duas horas e meia de conversa. Entre os acontecimentos históricos, as vidas que haviam seguido, os desejos de uma época, filosofias, medos, anseios e até sobre a televisão. Lembrei-me da última vez que havia ido a casa dele. Recomendei um livro, discuti um filme, brinquei com ele sobre o nome de seus cachorros.
E, no meio daquele entrelaçado de palavras, memórias e ingênuas filosofias ele sussurrou: “Esses dias, minha esposa falou que torce para que nosso filho tenha a boca de coração como a minha… lembrei-me de você, lembra?” E emendou a conversa sobre o quão pesado é o trabalho, a vida, a rotina.
Desligamos o telefone. Mantemos a ligação.
O tempo cronológico é uma invenção que busca nos limitar com paredes de memórias imaginadas. Quer que acreditemos que seus milésimos de segundos, resolveram nossos sentimentos. Mas o cantarolar do amor ecoa para além dos ponteiros.
Diferentemente dos príncipes e princesas, não vivemos juntos para sempre. Mas o arco do cupido, marcado no seu lábio superior, me flechou para sempre. E seu beijo, de encantamento entorpecente, me tomou de amor.
O relacionamento acabou. O amor nunca.
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